When attitudes (trans)form/ Quando atitudes (trans)formam - Galeria de Arte do Centro Cultural Minas Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil - 2014 - Curadoria: Cauê Alves - Fotos da Exposição
Resíduo do Tempo, 11'08''- Recorte e edição digitais da gravação "Experiences Nº2" de Jan Steele & John Cage (Voices and Instruments, 1978). - Marcelo Gerab
00:00 / 00:00

“Quando atitudes (trans) formam”

 

 

Pouco ficou deste pó

de que teu branco sapato

se cobriu. Ficaram poucas

roupas, poucos véus rotos

pouco, pouco, muito pouco.

Mas de tudo fica um pouco.

 

Resíduo, Carlos Drummond de Andrade

 

 

O nome da presente exposição de Shirley Paes Leme é uma paráfrase da famosa exposição de arte conceitual Quando atitudes se tornam forma, curada por Harald Szeemann, em Berna, na Suíça, em 1969. A mostra enfatizava processos e situações, em vez de obras prontas e acabadas. Ela se tornou um marco para a desmaterialização da obra de arte e para a compreensão da ação e atividade do artista como arte.

 

Um pouco de Szeemann ficou em Shirley Paes Leme. Ela faz o espaço expositivo se desmaterializar, ao cobrir o piso da galeria com placas de alumínio reflexivo que multiplicam a sala. É como se o teto afundasse, criando um abismo que se abre sob os pés do visitante. A sensação que o público tem é a de andar sobre uma superfície líquida.

 

Poderíamos compreender que se trata também de símbolo do processo de liquidificação social pelo qual passamos recentemente, ou seja, as estruturas, antes congeladas e excludentes, abriram-se e permitiram mais mobilidade social. Os elementos sólidos perderam consistência. Nada mais é feito para durar. Se vivemos hoje num mundo cada vez mais veloz e transitório, a sala espelhada de Shirley Paes Leme é também um lugar de contemplação, de desaceleração e de suspensão do ritmo frenético das grandes cidades. Mais que dissipar e dar uma aparência líquida ao espaço, trata-se de uma vontade de integrar o público no interior do trabalho e proporcionar uma experiência que o transforme.

 

Perceber o mundo de outro modo, a partir de imagens invertidas, pode fazer o sujeito rever seus valores e a posição que ocupa. O trabalho enfatiza o aspecto temporal do espaço, o processo de modificação constante por que ele passa, mas sempre deixando vestígios daquilo que ele já foi. No teto, a artista inseriu, manuscrito, com sua letra cursiva, o poema Resíduo, de Carlos Drummond de Andrade. As listras do projeto arquitetônico tornaram-se uma folha pautada, lugar onde surgiram os primeiros pensamentos do poeta. Como as palavras estão invertidas, podemos ler, lá no fundo gelatinoso do chão, versos desmaterializados que parecem eles mesmos vestígios e origens da literatura. Ora distanciados e fora de foco, ora mais próximos e legíveis, é o caminhar e o deslocamento do corpo do visitante que dá ritmo à leitura.

 

De fato, o espaço da mostra é móvel, as janelas tornaram-se livros abertos, e nelas foram impressas capas de livros de grandes escritores brasileiros, como Clarice Lispector, João Cabral de Melo Neto, Adélia Prado, Haroldo de Campos e Mário de Andrade. O trabalho apropria-se de características da arquitetura do prédio, ressignificando seus elementos, funções e memórias. Na parte de dentro das janelas/livros, fragmentos de poemas plotados articulam-se numa constelação de sentidos.

 

O poema de Haroldo de Campos escolhido para um dos livros/janela, assim como os desenhos da artista, explora não só o espaço gráfico como agente estrutural, mas também o aspecto serial das letras. Do poema, podemos retirar pistas sobre os diálogos travados entre desenho e poesia: “vem navio/ vai navio/ vir navio/ ver navio/ ver não ver/ vir não vir/ vir não ver/ ver não vir/ ver navios” [Haroldo de Campos, 1958]. Nesses versos, ao movimento do navio, seu ritmo que acompanha as ondas do mar, segue-se o jogo entre visível e invisível, aparecimento e desaparecimento. O mesmo faz a artista em seus desenhos. A distância entre o que vem até nós e o que se vê se alarga até se dissipar e frustrar as expectativas de quem ficou esperando chegadas ou partidas, sonhos, histórias ou encontros que nunca aconteceram. Esses movimentos de desmanche da sintaxe e das próprias palavras são radicalizados por Shirley Paes Leme.

Exatamente em frente aos “livros”, a artista fixou desenhos sobre telas do tamanho idêntico ao das janelas. Em cada um deles, frases e palavras perdem suas estruturas. Cobertas com fumaça, todas as relações de concordância e subordinação das orações são desordenadas. Não há mais nenhuma estrutura linguística que organize as letras. Elas se transformaram em sinais gráficos vazados. A partir de máscaras, as letras, em vez de serem desenhadas, formam-se a partir de seu negativo. Ao serem desveladas, trazem um oco interno, são antes lacunas que elementos resultantes de algum gesto incisivo. Letras isoladas, acinzentadas, mostram-se e escondem-se, revelam-se e camuflam-se.

 

Tais como os objetos gráficos de Mira Schendel, os desenhos de Shirley Paes Leme se reencontram com um fundo universal das línguas e, assim, aproximam-se do estado nascente da poesia e do pensamento. Deles, surge um excesso de sentido, múltiplas possibilidades que não se opõem à falta de sentido que o abandono das regras gramaticais proporciona. É como se a artista entrasse nas camadas mais profundas do alfabeto, lugar fluido e de deriva que os poetas frequentam com sua imaginação. A sala, janelas/livros, desenhos e piso espelhado proporcionam acesso a esse lugar instável, indeterminado e fugidio, de onde nasce toda a potência inventiva. O conjunto aproxima-se de uma espécie de mundo silencioso e primordial, de onde brota a linguagem. Entretanto, fora da linguagem verbal, os desenhos e a instalação de Shirley Paes Leme conseguem dizer coisas que a literatura não conseguiria. Jamais poderia haver um equivalente a eles no campo verbal. A artista torce os sentidos das letras, abandona a escrita e explora, ao mesmo tempo, sua visualidade e sua dimensão temporal. Seus desenhos trazem um instante da atmosfera rarefeita das fumaças, com uma grande variedade de sombras e texturas. O elemento líquido e o gasoso comportam-se de modo semelhante, sempre ocupando uma forma indefinida. Mas o ar denso e nebuloso das grandes cidades encobre nossa visão, as palavras, seus significados, e tende a tudo obscurecer.

 

Como um todo, no entanto, o conjunto é luminoso e esclarecedor. Se Shirley Paes Leme desenvolve, desde 1968, uma trajetória sólida como professora, nada mais natural que o fato de essa atitude integrar seu trabalho de arte. A atividade docente e de formação contínua é a própria obra de arte. Consciente das questões fundamentais de seu próprio tempo, inclusive daquelas que se encontram na sombra, o trabalho da artista está ligado à reflexão sobre o papel e a importância da atividade pedagógica em exposições de arte. Em vez de meramente delegar aos educadores o trabalho de pensar o processo de formação, a artista aborda isso no interior de sua obra. Tratar os educadores como meros prestadores de serviço para transmitir as ideias da exposição ou do pensamento curatorial não está no horizonte dessa mostra. O processo educativo é bem mais complexo que simplesmente oferecer conteúdo para o público. Ele representa a possibilidade do diálogo e da reflexão sobre o lugar do artista, do curador e do modo como a arte, ela mesma, possui um aspecto formador. É a partir do contato com a arte, de dentro dela, que os educadores podem buscar aproximações entre os visitantes e os processos artísticos contemporâneos, reinventando práticas já consolidadas. O que o trabalho de Shirley Paes Leme proporciona é uma espécie de quebra da linha divisória entre propostas pedagógicas e artísticas. E isso permite que o educador também possa exercer um papel mais inventivo e propositivo. Com o estreitamento de vínculos entre arte, pedagogia e curadoria, algumas das inquietações do público podem encontrar eco dentro das obras, no sentido tanto de satisfazer como de frustrar expectativas, mas sempre compreendendo esse processo. Isso qualifica a participação em trabalhos mais relacionais.

 

A banalidade do consumo e do entretenimento que invadiu as mostras de arte pode ser superada com a reflexão e a tomada de consciência que o processo pedagógico tende a estimular. Propondo uma mostra que não se encerra em sua parte expositiva, a artista organizou uma série de conversas, palestras e encontros com artistas, arquiteto, poeta, engenheiro, advogado e promotor, que ocorrem regularmente no espaço expositivo. Todas as falas estão ligadas a atitudes que transformam.

 

Classe é um trabalho relacional que discute as várias acepções do conceito de classe: ordem, classificação, sala de aula. Trata-se de um lugar de troca, de discussão, de lembrança, de contato direto com o outro. Nele, há uma lousa de ardósia, como aquelas usadas antigamente em processos de formação por alunos no ensino formal. O trabalho é um lugar de anotações provisórias, de esboços, desenhos e escritos que podem ser apagados e refeitos. Em Classe, há dois conjuntos de estantes de livros. Um deles contém livros de referências para ser consultados e usados nas atividades programadas e, no outro, há prateleiras nas quais a artista interveio, transformando-as em um trabalho mais escultórico. Esta é uma estante preta opaca, com lombadas pintadas de preto, que deixa aparente apenas algumas palavras. De modo aleatório, poemas e jogos de palavras são formados, criando sentidos inusitados e associações inesperadas entre fragmentos de títulos e tipografias distintas. As estantes com livros pintados de preto dialogam com a arquitetura das grandes cidades e seus letreiros luminosos, como se cada uma fosse uma paisagem noturna.

 

Shirley Paes Leme convida os visitantes a participar do projeto composto por materiais didáticos que ela guarda desde que começou a lecionar. Trabalhos de conclusão de curso, dissertações de mestrado, teses de doutorado que a artista orientou ou de cujas bancas participou, bem como antigos disquetes de computador com a descrição dos conteúdos são a matéria-prima para os trabalhos. Slides usados em aulas transformaram-se em painéis translúcidos nos quais a luz do sol funciona como uma lâmpada que projeta imagens na parede. Luz e sombra foram metáforas para razão e ignorância. A luz sempre esteve ligada ao conhecimento, ao saber, daí os termos Iluminismo e esclarecimento. A autonomia da razão humana elaborada nesse período foi central nas concepções de formação e educação posteriores. Mas, em Classe, a noção fundamental não é a enciclopédia, mas sim o arquivo.

 

Entre as funções ordinárias de um arquivo está a de organizar informações, reunir documentos e objetos em conjuntos que possuam unidade, e conservá-los para consulta posterior. Assim, o que está arquivado é algo que, em tese, passou por uma triagem e que possui relevância para ser armazenado. Mas o ato de arquivar implica não apenas registrar eventos, mas também produzir memória. Nesse sentido, há algo de ficção em todo arquivo, tanto quanto na própria história. Tudo o que é guardado pressupõe o que é descartado. Só há arquivo e lembrança porque há esquecimento.

 

Os arquivos de Shirley Paes Leme mais que se referirem a acontecimentos passados ou projetos a ser desenvolvidos no futuro, são também invenções, construções poéticas por aproximações, parte integrante da pesquisa e de exercícios de autocompreensão realizados pela artista. Assim, eles não poderiam ser a tradução de uma história objetiva; ao contrário, eles se afastam de qualquer pretensão de uma verdade positiva. As classificações e ordenações de Classe são deliberadamente subjetivas e transitórias.

 

O arquivo, nesse sentido, nunca está concluído. É de sua natureza ser um processo, existir por fragmentos, como a própria memória, e se estender no tempo. E a temporalidade de um arquivo é sempre múltipla, uma vez que ele é lido, percebido e interpretado de acordo com condições instáveis que cada presente permite. Segundo Jacques Derrida: “Ao mesmo tempo, mais que uma coisa do passado, antes dela, o arquivo deveria pôr em questão a chegada do futuro”[1]. O arquivo, em Shirley Paes Leme, ultrapassa os limites históricos. Ele é não só fonte de consulta de fatos passados, depósito de documentos que subsidiam o trabalho do historiador, mas também a possibilidade de futuro, de construção de memórias que ainda serão produzidas. O controle do arquivo e da informação implica poder e domínio, mas a configuração do arquivo apresentado na mostra não passa de uma ordem provisória e efêmera, um arquivo que não possui hierarquizações estáveis.

 

Não se trata de conceber o arquivo apenas como referência ou fonte de consulta para pesquisadores, mas como o próprio trabalho de arte. Produzir arquivos é também uma prática artística. Classe traz trabalhos que se aproximam de dispositivos de registros, de documentos, enfim, de uma biblioteca. Entretanto, as peças são apresentadas menos como em uma exposição tradicional e mais como em uma sala de aula. O arquivo intocável torna-se morto. Por isso, para que ele possa existir, é preciso que ele seja consultado e, assim, possa ganhar vida e sentido. Na mostra, há um livro com listas de textos que podem ser copiados e consultados pelo visitante.

 

Resíduos da atividade de docência são reconfigurados para proporcionar outras experiências. Além da atividade docente ser ela mesma um trabalho de arte, ela é geradora de uma série de outros trabalhos aqui expostos. Como o conhecimento não tem fim, uma pesquisa gera outra, uma obra de arte sempre abre possibilidades para outras e “de tudo fica um pouco”. A mostra está toda em processo, aberta infinitamente para o tempo e para as “atitudes que (trans) formam”.

 

 

Cauê Alves

 

 

 

 

[1]Derrida, Jacques. Mal de Arquivo: uma impressão freudiana. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001, p. 48.