Eterno Retorno - Carbono GaleriaSão Paulo, Brasil - 2020 - Curadoria: Patrícia Wagner

Ao longo de sua trajetória, Shirley Paes Leme elaborou um conjunto de trabalhos que, em sua própria complexidade, foram concebidos fora do paradigma do objeto único de arte. Obras que confirmam a intensa diversidade criativa de sua produção e que pulsam em ritmo próprio, caminhando lado a lado com sua poética. Uma variedade de suportes e materiais, experimentados em seus mais de 40 anos de carreira, que estão presentes em “eterno retorno” por meio de gravuras, objetos e um vídeo realizado pela artista ainda nos anos 1970.

É sabido que o tempo tem muitas faces; concepções que se apresentam e nos fazem sentir sua presença em diferentes ritmos, intensidades e emoções.

Diante dessa complexidade temporal, há uma perspectiva que é muito própria do trabalho da artista e que aqui se apresenta como marca de sua produção, tanto pela forma como elabora seu trabalho, como pelo caráter retrospectivo desta mostra. Para a artista, o vetor temporal é cíclico e se expande em uma multiplicidade infinita de possibilidades, de maneira que a cada volta, assim como a cada exposição, um novo arranjo é configurado. Dinâmica que reflete seu movimento em alerta para a interioridade do trabalho e também para o mundo exterior, uma disposição típica daqueles que, em sua afinidade natural e espontânea com a realidade, são capazes de captar os lampejos que darão origem a sua poética.

É também característico de Shirley, em seu ato de criação e experimentação, refazer e reinventar, atividades que se dão sempre em expansão, incorporando tanto novas formas do fazer artístico, quanto novos materiais, a partir das questões que se colocam a sua frente. Como disse o filósofo francês Henri Bergson, o artista possui uma afinidade espontânea com a realidade na sua capacidade de perceber despretensiosamente o mundo e, por conseguinte, atingir o que há de mais essencial na realidade: o tempo. Por isso, não há, no trabalho da artista, um assunto encerrado ou mesmo esgotado, mas um trânsito de possibilidades elaborado a partir de procedimentos para abarcar suas áreas de interesse. Nesse emaranhado de alternativas para captação do prosaico, do inusitado e das sutilezas do mundo, os trabalhos da artista com frequência partem das matrizes que a artista aprendeu a olhar e a valorar. As memórias da infância no sertão de Minas Gerais e Goiás apresentam-se como deflagradores de uma parte significativa de sua produção, e os fios dessa memória se entrelaçam em seu repertório como um tecido que articula presente e passado em um prolongamento constante.

O vídeo “Tente, tente, Amazônia”, realizado em 1976, é um trabalho de juventude e o mais antigo apresentado nesta mostra. Com ele, a artista abre um dos mais produtivos acessos por onde sua produção se desenrola; as relações de desequilíbrio e dominação entre o homem e a natureza. Com olhar agudo sobre o presente e em meio às tensões de uma atmosfera lancinante de repressão, a artista reflete sobre as arbitrariedades dos anos de chumbo. Questionando o desequilíbrio promovido em vários níveis pelo avassalador processo de desmatamento na construção da Perimetral Norte, o vídeo apresenta uma sucessão de imagens que se desenrolam ao som da música delirante de Janis Joplin; partindo de cenas que retratam uma natureza intocada até a sua progressiva devastação por retroescavadeiras nos recônditos da floresta amazônica.

Com “Aberta para o mundo”, a artista evoca suas lembranças de infância por meio de um bosque de jacarandá-mimoso. Árvore nativa do Brasil cujas flores lembram as trompas de falópio do órgão reprodutor feminino e seu fruto, de numerosas e pequenas sementes, assemelham-se à forma de uma vagina.


Conforme relata a artista, as cascas dessa árvore possuem propriedades antissépticas e antibióticas, e eram utilizadas na fazenda de sua família para curar feridas. Prefigurando a dinâmica dos ciclos vitais, de nascimento e morte, Shirley aponta, em sua obra, para a interrupção do curso da natureza, por meio das catástrofes ambientais, sem com isso alimentar quaisquer fantasias idílicas do ambiente rural. Ao contrário, a vivência genuína dessa relação deu à artista a possibilidade de construir uma reflexão crítica que parte de uma interioridade para uma exterioridade, de questões do corpo para questões do campo, da cidade ou mesmo da arquitetura vernacular.

A materialidade simples e primordial de elementos naturais é um núcleo importante da produção de Shirley em muitos outros trabalhos que fazem alusão ou guardam uma memória da organicidade das formas da natureza, como é o caso também de “Cadeira”, “Garranchos”ou “Tudo é amor”. Seus cubos de acrílico contendo fumaça, galhos e cinzas indicam, por outro lado, os fragmentos, restos e ruínas confinados na lógica racionalista de que a forma geométrica enuncia e abriga. Com “Sol de São Paulo”, obra que dá sequência a uma série de trabalhos que a artista vem desenvolvendo desde a década de 1980 com filtros de ar-condicionado, a temática da natureza avança na direção da cidade. Os filtros sanfonados de caminhão, marcados em diversas tonalidades pela ação da poluição, alçados à condição de materialidade artística, são cuidadosamente dispostos, compondo um dégradé cromático de formas sinuosas.

Como recurso inesgotável de pensamento e entrecruzamento de linguagens está a literatura, referência que subjaz à toda a produção da artista. Seja travando diálogos com as potencialidades da literatura como expressão do imaginário, seja na sua capacidade de transpor a palavra do campo literário para o campo visual, a artista dá à palavra uma nova condição de objeto imagético com vitalidade própria. Experiência que possibilitou a construção de um amplo repertório com o qual criou um léxico de frases corporificadas, em alusão a estados físicos alterados. Fundidas em bronze, alumínio ou apresentadas agora, pela primeira vez, em resina, possuem, cada uma a sua maneira, uma dimensão temporal singular.

Em “Palavras são corpos transparentes à procura de um arco-íris”, objeto translúcido que sugere um estado solidificado a partir de uma materialidade inicialmente líquida, a implicação do movimento empreendido pela Palavra na sua busca pela cor, indica a enunciação própria de um ato de criação, o momento do nascimento da poética contida na experiência desse instante. A obra, concebida a partir de uma exposição individual no Museu Vale em 2012, está em consonância com a ideia de fluxo que permeia o trabalho da artista.

Na ocasião, Shirley criou, no chão de uma das salas, uma superfície que simulava um espelho-d’água, sobre o qual os visitantes podiam circular. A aparência líquida incorporada por todo o espaço proporcionava ao visitante uma experiência imersiva e fusional. Ainda no mesmo ambiente, a artista criou desenhos com frases e palavras que flutuavam na superfície como corpos transparentes em meio à realidade fluida e difusa da exposição.